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tempo ao tempo

por Giovanna Bragaglia





Tal qual uma sala de cinema movida à luz natural, cujo roteiro insiste sobre a impossibilidade de captar o todo. Trata-se de uma longa exposição a olho nu — uma experiência de perceber a movimentação contínua sem tentar fixá-la.

É como estar no mar... descalço.

“Quem vem pra beira do mar, ai, nunca mais quer voltar”[1], já cantava Dorival Caymmi.

É como estar nas nuvens... pairando.

“Eu amo as nuvens... as nuvens que passam lá longe... as maravilhosas nuvens!”[2], respondeu o personagem estrangeiro de Charles Baudelaire.

Trata-se de dar tempo para o tempo passar.

Aqui, a iluminação natural opera como um projetor, e a obra de Estela Sokol, como uma tela viva em constante transformação. A partir da descaracterização da matéria, subvertendo a rigidez sintética das coisas do mundo, a artista brinca por entre gradações, camadas e espessuras para tomar a própria luz matéria. Na MAROLA, as formas arredondadas e côncavas articulam uma topografia tátil que sugere o brilho contínuo de ondas, nuvens ou escamas. Ali, abre-se uma sutil discussão sobre a cor branca no espaço: o branco deixa de ser um tom estático para se tornar um corpo sensível. Lugar onde luz, matéria e movimento operam juntos. Brancos se modulam, ganham sombras, texturas, reflexos e profundidades distintas, revelando que a própria cor é um acontecimento temporal.

Lá fora, a aceleração desenfreada da metrópole contrasta com os seculares jatobás, sapopembas e jequitibás do Parque Trianon. Suas copas parecem ser alçadas e integradas como extensão dessa paisagem interna.

“...numa paisagem em que nada permanecera inalterado, exceto as nuvens, e de

baixo delas, num campo de forças de torrentes e explosões, o frágil e minúsculo corpo humano.”
[3]

Assim descreveu Walter Benjamin a fragilidade do sujeito diante da velocidade técnica do impulso brutal da modernização no início do século XX. Parecia que apenas as nuvens mantinham seu próprio tempo, ritmo e cadência.

Diante dessa aceleração, ainda mais presente hoje, a capacidade de elaborar qualquer experiência se altera. MAROLA responde a esse diagnóstico convidando uma pausa para assistir à imersão no tempo em movimento. Onda agitada, fumaça no ar, ou estado de relaxamento: nem mar, nem céu. Numa tal altitude, em rarefeito, um cheiro familiar de cor laranja nos envolve num sobrevoo que nos eleva da cidade cinza, tirando-nos para fora sem nos mover do lugar.


Notas
[1] CAYMMI, Dorival. Quem Vem pra Beira do Mar. In: Canções Praieiras. Odeon, 1954.
[2] BAUDELAIRE, Charles. O Estrangeiro. In: Pequenos Poemas em Prosa. Tradução de Leda Tenório da Motta. São Paulo: Hedra, 2007.
[3] BENJAMIN, Walter. O Narrador: Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e Téc

nica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura (Obras Escolhidas, Vol. 1). Tradução de Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994, p.